sábado, 17 de junho de 2017

Dois (dias)

PPRA
17 dias e nada.
Das araucárias à neve,
a fronte imutável, gelada,
a saudade do que nem estava

predestinado ao longínquo
de muito mais que 90 dias.
Estabilidade mutável de liquido -
De certezas, só o que já sabia.

De férrea reclusão,
abrigo ao coração
que não sabe abrigar-se sem um igual.

De grão em grão,
neve que sufoca o sim em não.
Terras que sonham com um verão banal.

[Fernando M. Minighiti][17.06.2017][21:58]





sexta-feira, 12 de maio de 2017

Um (separação)

P.P.R.A.
Cala a voz à distância congelante
Palavra sem dom na garganta seca
Do murmuro, a felicidade distante
Encontra no tormento mais uma faceta.

E assim, como cego, perdido em historietas,
O fato me transpassa como dor lancinante
E por mais que fuja em poemas, operetas,
Da verdade o leito será sempre adiante:

Que por mais que o amor brote,
Não há nada em mim que transborde
A não ser tal dor que persiste.

Que dos "eu te amo", todos ditos,
De amores sentidos e perdidos,
És de longe o mais puro e o mais triste.

[Fernando M. Minighiti][10.05.17][14:45]


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Menos um (Preparação)

P.P.R.A.

Um cataclisma, uma colisão,
fruto deliberado do acaso ou destino.
Apenas aquilo que traz felicidade ao coração,
e que aos poucos de desfaz em desatino.

O calor de rotundo fitar
também é o sussurro do adeus -
a velha ironia do recomeçar
de quem não crê em Deus.

E essa dualidade
que um dia há de matar
é o que me guia adiante.

Pois toda minha felicidade,
que repousa em seu olhar,
fica, aos poucos, mais e mais distante.

[Fernando M. Minighiti][24.04.2017][16:45]


terça-feira, 18 de abril de 2017

Sina

PPRA

Pensei em escrever sobre você
Mas estou no Céu e no Inferno
De modo que assim não pode ser.
(E se) nesses dois opostos

Uma face sua posso compreender
Como hei de desvendar
Se o coração está sabendo amar
Ou se o luto há de reinar?

O regozijo e a tristeza
Descansam em rotundos olhos âmbar.
Leva-me da paixão à insanidade.

O soturno nasce do amor que em mim há
Num vão entre a fala e o silêncio
Entre teu afago e tua - até amável - impassibilidade.

[Fernando M. Minighiti][18.04.17][00:00]


segunda-feira, 20 de março de 2017

Incantável

P.R.B.

Canto aqui homem que não se canta
Dos sete mares desconhecido
Derrama teu véu de negras angústias
e oculta-me o bom sentido.

Canto o que não deve ser cantado
Pois roubadas as palavras são
Em tal presença, imperiosa como trovão
que só em mim ruge em negro e clarão.

O desatino que me causou
é como flor que desabrochou
no lamaçal, na podridão

É o céu, é o Inferno
é a dor do sincero
a incerteza da salvação.

[Fernando M. Minighiti][20.03.17][00:44]


domingo, 19 de fevereiro de 2017

Soneto quebrado

Deleita os olhos
em teus terrores líquidos.
Correm como ratos do predador
lufadas de ar no concreto liso.

Repara além das portas fechadas,
segue no olhar como que caçador  -
o trem adiante se perde
num passado finito.

Pisa na camisa roxa surrada
largada na escada,
e agora concreto também é.

Que não pare no caminho,
engole choro, engole carinho,
que passado o presente também é.

[Fernando M. Minighiti][19.02.2017][00h57]


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Apatia

Lá pelas horas que antecedem a manhã, as respirações já estavam sincronizadas. Suspiros leves e espontâneos quebravam o ritmo, que logo era restabelecido. Até que a respiração fez cócegas na nuca mais baixa. Ele se mexeu de leve, passou as mãos no pescoço. Curvou mais a cabeça. As cócegas eram involuntárias, por isso mesmo irritantes, mas de um prazer inumano. 
Abriu os olhos. Sentiu o cheiro de couro sintético, barato. O braço adormecido, privado de circulação, ele desdobrou e o deixou cair. Apoiava o outro sobre o lençol. Ainda sentia a respiração dele brincando-lhe na nuca, o peito inflando e murchando devagar às suas costas, sua mão repousando suavemente na sua lateral. Naquele momento ele era o ser mais leve. 
Sentia a luz opaca da televisão o banhar. O som, quase inaudível, dizia que algum tipo de orquestra tocava. Ainda assim, ele não se virou. A música estava tão baixa que poderia estar saindo de seus pensamentos mais profundos, e aquilo estava agradável. As luzes dos eletrônicos piscavam freneticamente ao fundo. Tudo estava vivo e, ainda assim, muito silencioso, como que à espreita.
O braço voltou a circular, e ele pôde a superfície felpuda. Cada vez era uma sensação única. Sentiu, também, as cinturas que se tocavam e as pernas, que de tão enroladas tornavam-se um só corpo. Fechou os olhos e, por um instante, foi tudo: respiração, toque, música, luz.
Virou-se para o outro lado, lentamente. Sentiu o formato do travesseiro mudar. A mão escorreu de sua lateral, então ele a recolocou, pendendo agora até suas costas. E, de lá, deslizou sua própria mão pela outra mão, pelo braço. Subiu-lhe pelo ombro até descansar no peito branco que ainda movia-se lentamente. Tocou-lhe o maxilar curvo, sentiu-lhe a aspereza da barba.
Os lábios fechavam-se em botão. O nariz europeu, irritantemente simétrico, continuava a expelir o ar que o acordara. O viu com os olhos e com as mãos até que a música se tornasse insuportavelmente alta e um nó formasse dentro de si. 
Ainda assim, tudo permanecia calmo enquanto ele o partia em pedaços e o escondia. Escondeu no peito, na cabeça, na boca. Fez do sangue dele o seu sangue, da sua carne, uma pele emprestada. Envolveu-o num abraço sangrento e desesperado, numa calma mortífera. Roubou-lhe a voz, roubou-lhe os medos. 
Desfez-se.
O sol nasceu. Espreguiçou-se. Esticou o braço até vencer todo o colchão vazio e alcançar o couro barato. Não estava sozinho.

[Fernando M. Minighiti][09.02.2017][02:07]