segunda-feira, 8 de abril de 2019

Sangria

PJW

Se carma é uma vaca,
pois então não dá leite.
Mata de miséria, de fome,
de loucura e de sede.

E nessa erupção
é difícil saber lidar
com tudo o que ainda não passou
com tudo o que ainda pode chegar.

Avante, sempre adiante.
Espera o tempo trabalhar
- Esse empregado insubordinado
que insiste em protelar.

Pois não é só de vingança
que se faz refeição fria:
O tempo, maldito, tudo petrifica:
Saudade, amor, alegria.

E eu sinto que não sou maturo
para deixar à sorte a vida.
Tenho pressa no viver,
pressa no que me angustia.

E, na pressa, tu dirias
que o céu é o nosso guia,
que nada mais o angustia,
que tudo em  nós já te cativa.

Mas se quiseres ir,
faça a galope, só anuncia.
Prepara terreno pr'essa sangria
de quem, por ti, até já faz rima.

[Fernando Martins Minighiti][08.04.2019][14:03]


domingo, 31 de março de 2019

Inonidecima

Como escrever
Sobre essa raiva indomável
De motivo e causa inominável
De recusa profunda em sofrer,
Se é algo se não se pode ler,
Ainda que em versos possa tentar
Sentimentos tais abreviar
E que em vão tento sondar
Em mar de palavras inavegavel
Em som de sinfonia não cantavel

Como posso em poema versar
Esse nada que tão lentamente
Aos poucos e tão latente
Em mim passa a habitar
Sem nem ao menos hesitar.
De vazio faz seu abrigo
Chamando para morar consigo
Rompendo e dividindo comigo
O vórtice que nasce fluente
De vazio e escuridão crescente

Como por ajuda clamar
Se não posso quiçá entender
O que faz esse nada crescer
Com a voz que só faz calar
Com a dor que só faz chamar
Por aquilo que já não tem nome
Por amor que não aparece nem some
Por eterna e insaciável fome
Pela angústia que se faz sem querer
Pela vida que se desfaz no sofrer

[Fernando Minighiti] [04.03.19] [19h16]



San Vatentín

Dois homens se beijam na sacada
Vejo aqui do décimo andar
Lá em baixo, tudo tão igual.
Aqui, tudo tão distinto.

Tropeço na via, palavras escapam
Impessoal, um estranho sem ninho.
Caminhando entre delicias e belezas,
Obeliscos de almas mudas.

Mas lá do alto,
Da montanha secular,
O silêncio abrasador.

O nada no tudo
Dissolvo em amar
Dissolvo de dor.

[Fernando M Minighiti] [15.02.19] [00:42] (CL)



quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Cansaço

Deposita no mar teu desespero,
e a água tua mágoa dilui.
O fardo é pesado, não te culpes.
Todo oceano é negro pela noite.

Respira, amigo.
Finge que nada aconteceu,
agora que o léxico te escapa.
Agora que a língua, em ti, morreu.

E nas ondas,
banha-te de tristeza,
de líquida calmaria.

Seca-te no vento.
Limpo, voa com leveza,
rumo à terra jamais vista.

[Fernando M. Minighiti][16.01.2019]


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Raiva tragicômica para ser recitada

Se é negro, é sempre preto demais
Imagina eu, parado pela ronda
Apalpado, julgado
que vergonha, a família não merece
saber que você fuma maconha.

Se os olhos são puxados
não serve mais do que pra resguardo
Precisa ter pintão, bundão
igual àquele de negão
mas sem ser preto demais.

Se dá pinta, esquece
Você não tem vergonha?
Vai apanhar na rua, igual prostituta
engrossa a voz, caralho, aqui é discreto
e só te como no sigilo, quieto.

Mas entre quatro paredes
você pode se soltar, rebolar, pode miar
pedir gostoso pra apanhar
igual àquele que dá pinta
e sangra na calçada da esquina.

Se é fiel demais
não vai passar do primeiro mês
monogamia não é a vez
Poliamor, trisal, desapego
Nova ordem para novo sossego

Que vem depois da foda
Mas se quiser foder, bebê, não se choca
que amanhã a rola já é nova
E ai se chamar de puta
Só crio as próprias condutas.

Se for pobre, sem chance.
A gente conversa, mas nem se adiante
Bicha poc, dependente, não é atraente.
Como vai pagar meu jantar caro?
Como vai me dar num motel sem carro?

Tenho cara pra metrô,
proletário suado, trabalhador
que se espreme sem ar condicionado
pra ver um pretendente a namorado
que nem sequer é condutor?

E se não morar sozinho?
Bom pra ser bons amigos
Cama de casal é requisito
Casa própria é só o início,
free-pass, assim pode até ser marido

Mas se for o morto,
É outro da nossa causa
que se mata nesse mundo louco
Mais um irmão que partiu, sorriso que sumiu
mas enlouquecido pela ironia

de ver machismo e homofobia
na heteronormatividade escondida
no espelho daquele que deveria ser família
mas que de longe prega a união
a menos que tenha bundão, pintão, culhão.

[Fernando Minighiti][10.10.2018][11h28]


segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Covardia

Há, para tudo, um tempo,
desde o frio alvorecer
até a hora do adeus latente.
Perde o tempo, passa a hora
e nada pode mais ser feito

Prolonga a inevitável morte,
semeia o corpo sem vida,
rega a pele apodrecida,
profunda em terra batida;
de coração que já não palpita.

E pede pra santo, reza pra deus,
pra da morte flores nascer
de corpo decomposto liquefazendo.
Desespero do que já foi
e deveria, de fato, ter ido.

Mas fica, ainda que preso,
pois já passou o tempo,
e o adeus uma vez iminente
agora se prolonga, doente,
no estômago do bigato

que mói a falta de tempo
por nós mesmos feito,
ansiando por ressurreição
à espera que o tempo volte
e tudo finde, então.

[Fernando M. Minighiti][05.08.2017][23:28]


terça-feira, 19 de junho de 2018

Estocolmo

Se tudo já tivesse esquecido
essas palavras já não me pertenceriam
toda a saudade já teria ido
angustia e tristezas adormeceriam.

Cortado a fogo no toco baixo
raiz que sobrevive, respiro asfixiado
presente que calmamente desfaço
em ode dolorosa ao passado.

Hey, brother, onde estás agora
que o amanhã logo menos já veio?
Vem e, depois, esquece.

Vem, mostra que hoje te tornas
homem melhor do que já me lembro.
Vem e, depois, evanesce.

[Fernando M. Minighiti][18:22][19.06.2018]