segunda-feira, 10 de julho de 2017

Três (Realidade)

P.P.R.A

Forjado em sangue, és de carne e osso,
e artérias, e músculos, e sonhos.
Teus ancestrais, não mais do que mortos:
O pó não fareja à genealogia, tão pouco se importa.

Encontraste o sentido da vida em viagens distintas?
Subjugou a dor na brancura do teu dia a dia?
Teus sonhos não são mais altos que tua fronte,
pois nela tu findas; nada abaixo, nada acima.

Negando tua pequenez,
buscas, tal qual criança contrariada,
significância à uma essência invariada.

Quanto a mim, nesta louca lucidez,
encaro teus ossos em teus passos:
"Amém! Por fim, não és à prova de fracassos!"

[Fernando M. Minighiti][10.07.2017][02h44]


domingo, 9 de julho de 2017

Subjetividade. Duplicidade.

29 meses. 870 dias. 20.880 horas e um milhão e duzentos e cinquenta e dois minutos. Cem milhões e duzentos e vinte e quatro batimentos de coração. E tudo ainda é o mesmo.
Uma das principais críticas à arte contemporânea é a subjetividade. É difícil saber o que o escritor quer atingir. Mesmo que seja algo que ultrapasse as bordas do seu próprio corpo, tudo é, por essência, interno, singular. A chave da compreensão total, quando há, recai sobre ele mesmo, deixando o mundo à deriva, trancado do lado de fora de seus conceitos. Não ligo para isso. Como poderia ligar? Não sou poeta, não sou prosador. Não sou artista, e o que de mim é expresso, que poderia ser atribuído apenas e, ainda assim superestimada aspiração à arte não é nada além do que o retrato ou a transfiguração de uma dor intrínseca ao viver. Como, pois então, trazer sentido à dor? A dor é sem sentido, assim como a arte. Não me importo em muni-la de significado artístico refinado além, naturalmente, da própria dor.
Assim, concluo que tudo permanece em seu estado de duplicidade. Todas as 29 luas cheias ainda permanecem e, em breve, teremos a trigésima aparição. De fato, tornou-se impossível fitá-la por mais do que poucos segundos desde a de número zero – assim como as estrelas ofuscadas momentaneamente pela fumaça do cigarro. O brilho resplandecente torna-se uma afronta ao fato de hoje ser insuportável.
Tudo permanece porque tudo está germinado. Sementes gêmeas. E nunca haverá de nascer árvore mais frondosa e temível quanto a do fruto do meu amor e do meu ódio. Não há como suprimi-los. Eles coexistem e, sem alguma metade, tudo sucumbe. Entre os escombros, ruína também me tornarei. Assim, ao passo que o ódio acalma-se no âmago, banha o ser com sua escuridão opaca, um resquício tímido e dourado, ofuscante, de tamanho negrume avassalador, valsa lentamente no vácuo sensível.
E entre o soturno erudito, nino ao som da melodia da dupla existência. A natureza ambígua sangrou por tempo o suficiente para repousar para o balé agridoce das vivências, para aquilo que vagueia entre o adorável e o inconcebível, entre as luzes e as trevas, a vida e a morte, ente o tênue espaço das duas faces horrendas do dançarino siamês que não pode mais ser fragmentado. E ali, nele vão ínfimo, a mais pura beleza da resignação.
Porque é ali, na linha tênue entre a dor e o prazer que chamamos vida, que tudo ainda consegue permanecer. Não sou ninguém para desbalancear o equilíbrio frágil da existência renegando o veneno concentrado, fermentado do meu ódio. Assim sendo, é impossível negar o fino fio de ouro que insiste em ser a munição de uma guerra sem fim. Sem sentido.
Depois de 871 dias, tudo permanece. A trigésima lua cheia está para nascer, e dessa vez não erguerei meus olhos para as estrelas.


[Fernando M. Minighiti] [07.07.2017] [16:49]





sábado, 17 de junho de 2017

Dois (dias)

PPRA
17 dias e nada.
Das araucárias à neve,
a fronte imutável, gelada,
a saudade do que nem estava

predestinado ao longínquo
de muito mais que 90 dias.
Estabilidade mutável de liquido -
De certezas, só o que já sabia.

De férrea reclusão,
abrigo ao coração
que não sabe abrigar-se sem um igual.

De grão em grão,
neve que sufoca o sim em não.
Terras que sonham com um verão banal.

[Fernando M. Minighiti][17.06.2017][21:58]





sexta-feira, 12 de maio de 2017

Um (separação)

P.P.R.A.
Cala a voz à distância congelante
Palavra sem dom na garganta seca
Do murmuro, a felicidade distante
Encontra no tormento mais uma faceta.

E assim, como cego, perdido em historietas,
O fato me transpassa como dor lancinante
E por mais que fuja em poemas, operetas,
Da verdade o leito será sempre adiante:

Que por mais que o amor brote,
Não há nada em mim que transborde
A não ser tal dor que persiste.

Que dos "eu te amo", todos ditos,
De amores sentidos e perdidos,
És de longe o mais puro e o mais triste.

[Fernando M. Minighiti][10.05.17][14:45]


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Menos um (Preparação)

P.P.R.A.

Um cataclisma, uma colisão,
fruto deliberado do acaso ou destino.
Apenas aquilo que traz felicidade ao coração,
e que aos poucos de desfaz em desatino.

O calor de rotundo fitar
também é o sussurro do adeus -
a velha ironia do recomeçar
de quem não crê em Deus.

E essa dualidade
que um dia há de matar
é o que me guia adiante.

Pois toda minha felicidade,
que repousa em seu olhar,
fica, aos poucos, mais e mais distante.

[Fernando M. Minighiti][24.04.2017][16:45]


terça-feira, 18 de abril de 2017

Sina

PPRA

Pensei em escrever sobre você
Mas estou no Céu e no Inferno
De modo que assim não pode ser.
(E se) nesses dois opostos

Uma face sua posso compreender
Como hei de desvendar
Se o coração está sabendo amar
Ou se o luto há de reinar?

O regozijo e a tristeza
Descansam em rotundos olhos âmbar.
Leva-me da paixão à insanidade.

O soturno nasce do amor que em mim há
Num vão entre a fala e o silêncio
Entre teu afago e tua - até amável - impassibilidade.

[Fernando M. Minighiti][18.04.17][00:00]


segunda-feira, 20 de março de 2017

Incantável

P.R.B.

Canto aqui homem que não se canta
Dos sete mares desconhecido
Derrama teu véu de negras angústias
e oculta-me o bom sentido.

Canto o que não deve ser cantado
Pois roubadas as palavras são
Em tal presença, imperiosa como trovão
que só em mim ruge em negro e clarão.

O desatino que me causou
é como flor que desabrochou
no lamaçal, na podridão

É o céu, é o Inferno
é a dor do sincero
a incerteza da salvação.

[Fernando M. Minighiti][20.03.17][00:44]