domingo, 3 de janeiro de 2016

Fatos noturnos

Quando despertas do sono
E a ele não retornas
Tudo toma forma
Na escuridão que por horas é eterna
E intransponível

A não ser pela respiração
O ar que entra pelo nariz
Oxigena o cérebro,  na escuridão,
Carregado de fatores,
Memórias

Que, nas correntes sanguíneas
Alimentam os neurônios
Com formas que só saem
de seus moldes
Justamente na ausência da luz.

Porque é aqui e agora
Que tudo fica às claras.
O reflexo se perde e o verdadeiro contorno
Reina sobre aquilo que não vemos -
Mas sentimos.

E a sensação fala por si
Sem um som,  sem um ruido
Mas está lá, no ouvido,
Murmurando.  Sussurrando
A luta inglória

Às palavras não ditas e não esquecidas
Entrega-te de alma suja, mas entrega-te.
Partida, mas íntegra.
Pois elas só existirão nessas noites
Em que o fantasiar lhe é negado.

Tudo que é ido,  tudo que ficou
Espremido entre o corpo e a parede
Na cama de solteiro.

E lá, naquele vão,
Naquela fresta infeliz
O mundo inteiro.

[Fernando M. Minighiti] [03.01.16] [05:39]



domingo, 13 de dezembro de 2015

Santuário

A morte do cordeiro
Agulha no palheiro
Tudo aquilo que fui
tudo aquilo que jamais serei.

Transpassado pela lança
Funeral da esperança
Tudo o que tive
e nunca mais terei.

O que te tornaste?

O sangue que se derrama
Acalenta a criança.
Não traz vida àquele
que já foi quebrado.

No amor, um santuário
Invadido, queimado, estuprado
Traído por aquilo
a que um dia me uni.

O que me tornei?

Voe alto, incendiado, libertado.
Alcance a estrela, enterra-me com tua pólvora.
Eu não posso chorar, pois segui os meus passos.
Eu não posso vencer, pois não há mais nada a perder.

Acorrentado, flagelado, mutilado.
Criança solitária, abrace o seu arco.
Atire ao léu, caia com seu malfeitor.
Atire ao léu, traga a morte àquele que te matou.

[Fernando M. Minighiti][13.12.15][16:44]




quinta-feira, 26 de novembro de 2015

The sold one

I was born into the wild
and crazy, lying eyes.
Talking about your life to me
And I don't know how do I should be.
There's too much between lines
I read what you left to me
But i'm not like those dumb kids
Much more that you can see

I am evil
Older
Cheaper.
I am lonely
And I am grieving
But I'm cheap.

This isn't real
but i swear I could feel
As long it's a game
I dare to play
Is not to be
even if i fall on my knees
Could I be a looser
if you be a scoffer?

All of them talk 'bout beauty and charm
You're not so different.
but your glamour makes you something plus
lubricous, like a dangerous serpent.

I could kid myself and think that is true love.
I could kid myself and think that I am the only one.
I could kid myself and think that I am the salesman
But I'm the fuckin of sold one.

The sold one, not the salesman
Take my futures
And buy my minutes
Take my futures
and buy someone

Evil
Older
Cheaper.
someone lonely
someone grieving
But cheap.

This isn't real
but i swear I could feel
As long it's a game
I dare to play
Is not to be
even if i fall on my knees
Could I be a looser
if you be a scoffer?

[Fernando M. Minighiti][02:18][26.11.15]




sábado, 14 de novembro de 2015

Azul

P.T.C.

Voa, passarinho
nasceste para o azul,
e ao azul deves pertencer
limitado pelo ilimitável
finito, mas não sem provar do infinito.

Voa, pássaro silvestre
deixaste pai, deixaste mãe, deixaste o ninho
abraçaste o mundo com teu inegável carinho
com a sede voraz de mais... liberdade
livre arbítrio.

Voa, ave do mundo
pois ele te pertence - e tu, a ele -
como tuas penas douradas
que sempre te guiam de volta
para debaixo da asa de onde saíste

Mas voaste, passarinho.
fizeste do 16º o teu ninho
trocaste a montanha pelos blocos cozidos
mas ora, também de barro
não é feito o tijolo?

Voa, pássaro sertanejo
ganha o mundo inteiro
derrama-te em palavras alheias
que se assentam
com o bater de tuas asas.

Voa, pássaro livre.
Fortalece a mente, fortalece o corpo, fortalece o espírito,
Já encontraste a feliz cidade, há anos, a felicidade.
mas lembra de minhas palavras humildes?
Teu limite é o infinito

E se um dia cansares
se voar não quiseres mais
lembres que nasceste um pássaro livre
que ao azul pertences
e ao azul sempre há de retornar.

[Fernando M. Minighiti][11/11/15][02:45]











quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Abstração

Com o tempo e com a idade, ele aprendeu a abstrair. Se foi ele, se foi o mundo, ninguém soube dizer. Muito menos ele mesmo. O fato é que tudo o que era pesado tornou-se leve e a ausência de gravidade o fez flutuar. As métricas tornaram-se minimalistas. O exagero regressou ao estado natural daquilo que era apenas essencial. Tudo passou a ter o sentido que nasceu para ter. Até a abstinência.
Primeiro, ele precisou secar. Nadara em águas profundas, porque sempre fora um enigma. Na imensidão do revolto mar da psique, encontrara seu lugar na submersão total. Regressar à superfície fora difícil e trabalhoso. Pesado, no sentido prático. Quando aquele que se entrega aos seus instintos animalescos escala a montanha do consciente, sofre. E ele sofreu. E foi o primeiro conceito que ele abstraiu. E aprendeu. So. Fri. Men. To. Enquanto estava submerso, estava entregue. Não ao mundo, mas a si. Fora na genuinidade dos sentimentos irrefreáveis que descobrira seu eu mais profundo, tanto quanto aqueles bancos de areias submersos. Como emergir ao pico mais alto, e levar consigo tudo aquilo que descobrira ser? Ele o fez. E o vento o secou.
Depois, ele esqueceu. Aos poucos, como quem não quer que o doce acabe. Vagarosamente, assim como o outono despe as árvores. E, lá do alto, suas memórias caíram como folhas secas. 
Se as palavras eram o tronco, as flores eram personificação da voz. A primeira coisa que o deixou foram as cordas vocais. Já não se lembrava mais da tonalidade, da voz, do timbre, do canto. O vento sussurrava em seus ouvidos, então até isso fora despejado para fora de si. 
Depois, foi a vez da amargura. Da decepção. Da mágoa. Da tristeza. Abriu os olhos, mas não viu a imensidão que o cercava, mas tudo aquilo que o continha - e nem por isso menos imenso. Viu o coração pulsante e os rios de sangue. As colinas de ossos. Os pulmões negros. Viu as borboletas secas e mortas em seu estômago. Nenhuma delas agonizava. Nenhuma sofria de uma morte dolorosa e ainda inacabada. Nenhuminha. Submergiu todos os cadáveres com bile. E o a dor nunca mais o tocou. Nem a elas.
Quando enfim despiu-se, quando o outono finalmente fizera seu trabalho, tranquilizou-se. Percebeu que existia. Isto é, deu-se conta dos processos. Precisou estar à beira da mais alta escarpa, precisou despir-se, precisou corroer-se com seu próprio ácido para que, agora, olhasse suas necessidades. Sua biologia.
Lá estava ele, emerso, um saco de pele que guardava ossos e sangue. Cada batida de seu coração era como um soco no peito, e ele podia sentir cada glóbulo fluir em suas artérias mais profundas. O ar que seus pulmões roubavam parecia limpo demais para ele, que precisou de tempo para acostumar-se a sentir seu par de órgãos, antes secos, inflando e murchando. Inflando e murchando. Inflando, inflando e murchando. E, quando fechava os olhos e se concentrava, podia jurar que sentia cada neurônio em seu cérebro, em sua rede de bilhões de elos. Ele era um deles.
E assim viveu e viveu. 
Viveu. Sóbrio. 
Sóbrio, viveu. 
Sobreviveu.
E, quando descobriu que sobrevivia, abriu os olhos. 
Ele era o mesmo - ossos, pele, órgãos, carne, sangue. Alguma coisa faltava, e essa coisa era inominável. Aquela querência o tomou de tal forma que precipitou-se. Em espírito e em corpo. E, como uma última pétala, atirou-se para o fundo do seu ser e para o fundo do mar de onde saíra. 
O vento do inverno que  já chegava balançava sua queda, assim como a árvore balançava furiosamente. Mas se ela estava nua, de onde vinha aquele sussurro que só existe quando o vento acaricia as folhas, as flores? Onde estaria escondida a vida naqueles galhos secos e mortos? 
Onde o ciclo deveria renovar-se?
Abriu os olhos. Cada vez mais perto de sua existência, via inúmeras estrelas refletidas na superfície do mar. Podia ouvir o batuque selvagem que se escondia tão bem naquelas águas negras, perfuradas por luzes que não eram delas.
Daquela vez, as notas eram diferentes. 
Guinou seu corpo, leve como uma folha. Sentia o sangue fluir e pulsar em suas têmporas, enquanto o rugido de um leão ecoava pela garganta. 
Inclinou-se para a imensidão. O céu estava estrelado.

[Fernando M. Minighiti][28.10.2015][04:30]




segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O vôo

Voe para longe,
Passarinho errante.
E não lembres a nenhum instante
Porque o politicamente correto
Nunca lhe foi algo concreto.

Voe para a noite,  distante
Não ofegante, esconda-te nos Andes.
Mas não,  não te adiantes.
Voe para a lua e, se não quiseres voltar
Trate de esconder bem teu coração noutro lugar. 

[Fernando Martins Minighiti] [05.10.15][7:25]



domingo, 6 de setembro de 2015

Poema de despedida

Do que é feita a partida?
Quais são seus ingredientes?
O remorso que, de tão íntimo, torna-se sanguíneo?
A inveja latente?

Mas, amigo meu, inveja do que?
Inveja da ida, da despedida?
Dos restos mortais, do que volta ao pó?
Inveja... de se sentir traída?

Ah, a despedida, nossa infiel amiga!
A abraçamos com falsa aceitação,
E em seu aconchego, mesmo em sua companhia,
definimos, catalogamos "solidão".

Mas quando partires, amigo, que vivas!
E se a dor for deveras latente,
Erga-te a cabeça e relembre:
"Só tem vida aquele que olha pra frente".

[Fernando M. Minighiti][00:01][06.09.2015]