domingo, 24 de abril de 2016

Diurno

Eu vi um menino chorando
ao pé da estrada.
Suas lágrimas rolavam profusas,
entretanto sua fronte era seca.
Eu vi suas histórias cantadas
em cada gota de água
que alimentava o rio da estrada
que ele ainda não trilhou.

Eu vi uma velha alma
no corpo do jovem.
O crescer era o ranger do espírito
que jamais renovava.
A carne era a liberdade e a prisão.
D'águas passadas, nascia o futuro -
talvez regavam o presente
que ele nunca viveu.

E eu senti, sob meus pés cansados,
o fim do caminho.
Provei da água do rio,
e nela, engoli meu choro.
E vi que o belo da vida
não vale uma lágrima derramada.
E, além, o rio, a estrada virgem,
e o sol que nunca provei.

[Fernando M. Minighiti][24.04.2016][06:15]




sexta-feira, 15 de abril de 2016

A lua, o coelho, o poeta

Há pouco tempo, menos de um ciclo lunar atrás, algo engraçado aconteceu. Despi minha roupa, aconcheguei meu cachorro em sua caminha. Fechei a porta do quarto e apaguei as luzes. Era madrugada, precisava dormir. Foi só quando comecei a relaxar na cama que reparei em algo diferente, pertencente àquela noite: meu quarto não estava escuro, como deveria. De fato, vários objetos projetavam sombras... no meio da madrugada.
Revirei-me na cama, e vi minha janela. E, nela, uma lua cheia soberba. Não era qualquer lua cheia. De alguma forma, era a minha lua cheia - ela apontava para a minha cama como que diretamente e deixava meu quarto iluminado em meio a noite. 
Aquilo nunca acontecera. Não com tal intensidade. Talvez por isso permiti-me sair da cama e observá-la. Ou talvez uma criança inocente despertara de mãos dadas com o desejo de encontrar São Jorge na lua. O que ele fazia mesmo? Sim, matava um dragão.
Procurei o coelho, também. Não me lembro do quê acontecia quando uma criança achava o coelho na lua, qual a sua boa-aventurança. Mas me lembro de que as crianças procuravam o coelho, e cá estava eu, um homem à beira dos 22, ainda à procura.
Não o achei. Nunca o achei, na verdade., Não sei se a culpa é dos meus olhos deficientes, se o coelho fugiu antes que eu tivesse tempo de encontrá-lo, ou se simplesmente é algo que não seja para mim.Talvez seja uma lição empregada desde criança, a fim de ensinar-me a viver em ausência, em busca de outras fontes. Como a própria lua que estava ali a rasgar a escuridão, tão preciosa para meu sono - outra ausência.
Ou então, e tenciono a esta divagação, nunca o encontrei porque ele é tão negro quanto a própria lua.
E foi então que dei-me conta do motivo pelo qual este astro frio sempre foi a mãe dos sonhadores, a protetora dos poetas. 
Ela, por si só, é fria, inóspita. Não faz-se vista, não reluz. Precisa encarar o Sol, em toda sua agressão, precisa absorver aquilo que ninguém mas consegue absorver, para que possa nos banhar com sua beleza prateada. Ela não estava lá, no meu quarto, à toa, por estar, despretensiosamente. Ela estava enxergando algo que não podia enxergar, traduzindo-me em sua claridade leitosa.
Quem mais realiza tal proeza, quem mais se arrisca ao ponto de queimar a pele para doar a alma, que não o poeta? Assim como a lua encara o sol para nos dar sua luz, o poeta remexe em tudo aqui que os humanos renegam, e sofre. Sofre com calor das verdades irrefutáveis e silenciosas. Entende tudo aquilo que ninguém mais entende.
E, tão suave quanto a luz do luar, traduz tudo aquilo que viu com aquela beleza que só a tristeza possui. 
Talvez seja essa a magnum opus da lua. Mais do que marés, horóscopos, superstições, a morada de São Jorge e brincadeiras de crianças, talvez ela esteja lá, flutuando soberba no firmamento, para nos lembrar da beleza do segundo lugar. Para nos dizer "calma, respire. Pense melhor". 
Alguns dias depois, a lua já não estava mais cheia, e sua órbita já não cruzava minha janela, de modo que a escuridão habitual voltou a reinar nas noites, quando ia dormir. E, numa dessas noites, sonhei com um eu jovem, no meu quarto atual, brincando com um coelho tão negro quanto a lua e, por isso mesmo, belíssimo. E, nesse momento, eu percebi o porquê jamais havia encontrado o coelho na lua na primavera da minha infância. Desde então, eu soube que meu quarto jamais seria tão escuro novamente.

[Fernando M. Minighiti][15/04/2016][22:52]